CANELADA
Crônicas do mundo da redonda mais amada do Brasil.


11.2.09  

A excreção é a regra

A imprensa brasileira está pronta, mais uma vez, para sujar as mãos com o sangue de torcedores corinthianos e/ou são-paulinos. Alguns jornalistas agem como semeadores da discórdia, lembrando minha fase de estudante ginasial, quando incentivávamos brigas entre alunos com aquele “ih, chamou o pai de empadinha, a mãe de coxinha e comeu os dois”, ou “ah, eu não deixava ele falar isso”, deixando ainda mais os ânimos já exaltados dos garotos cheios de testosterona e o saco inchado de espermatozóides. Esse caso da cota de 10% de ingressos destinados à torcida alvinegra para o clássico contra o São Paulo levou a imprensa esportiva paulista a histeria coletiva. E como uma bando de ginasiais que só querem ver o ódio entre os rivais, usam essa maravilhosa ferramenta de comunicação, e perdem preciosas laudas como garotos de recados de dirigentes provocadores.

O jornalista Benjamin Back, em sua coluna Papo com Benja, fala sobre o bom senso que sempre prevaleceu ante a lógica das cotas dos ingressos, ainda mais em clássicos entre os três grandes clubes da capital paulista. Mas finaliza com uma matemática de comerciante chinês e subtrai alguns números da carga total de ingressos, diminuindo a cota para os corinthianos de 6.200 para 4.000 lugares, o que, na consciência de alguns leitores, se tornaria uma afronta maior ainda, e finaliza com a pergunta “Você concorda com a atitude da diretoria são-paulina?”. Vamos embrulhar peixe!

Claro que o papel da imprensa é divulgar os fatos, mas dar espaço para a ira de dirigentes que falam coisas impensadas não é nada bom e as coisas podem ficar bem estranhas no próximo domingo. Nessa última terça esse foi o papel do programa Jogo Aberto da Bandeirantes, uma espécie de porta-voz do Corinthians, já que, de seus quatro comentaristas, três são claramente torcedores do alvinegro – do Godoy ainda tenho dúvidas em relação a quem o coração dele apóia. O intuito desse programa é criar polêmica para trazer audiência sem medir as conseqüências futuras. Talvez, na edição da segunda-feira da próxima semana, sua audiência aumente com um pouquinho de sangue de alguns torcedores baleados. E, com a certeza de que meu pinto vai subir sempre que eu ver uma bunda gostosa, esses mesmos comentaristas vão dizer “Pra quê isso gente? Vão brigar por causa de futebol? Isso é coisa de marginais! Olha como aquele menino apanhou. Se a paulada não fosse na nuca ele estaria vivo”.

No blog do Quartarollo a discórdia continua. O jornalista descreve como os jogadores do Corinthians se referem um ao outro durante os treinamentos. Apelidos como Franga Fenomena para o Ronaldão e Franga Baixa para o Lulinha entre mais algumas frangas, e diz que apelidos no feminino é “meio estranho” e, mais adiante, enfatiza “depois falam do São Paulo”. Fazendo alusão ao carinhoso veado Bambi como é chamada a torcida tricolor pelos adversários. Aonde você quer chegar Luís Carlos Quartarollo? Provavelmente numa besta provocação entre os rivais em uma hora ruim. Acredito eu que ele não escreveu essa bobagem com má intenção, e que tenha sido apenas um lapso de sua fase adolescente.

Os dirigentes corinthianos estão caindo na provocação não da diretoria são-paulina, mas sim da imprensa que os cutucam com perguntas que, numa segunda leitura, podem ser interpretadas como um “vai deixar quieto?”. Em nota divulgada ontem a ira dos alvinegros estava bem clara e deu para perceber que eles caíram nessa provocação. Na nota diz que a diretoria do Corinthians “repudia posturas elitistas de dirigentes arrogantes, típica de times de pequenas torcidas”. Prato cheio para os urubus da mídia esportiva. Ih, chamou o pai de empadinha, mãe de coxinha e comeu os dois. Provavelmente hoje vão focar os microfones nos dirigentes tricolores esperando algum argumento inconseqüente e provocativo. A contra-resposta da empáfia elitista. “Hum, cuspiu na cara, eu não deixava”.

É a lógica da perversidade. Fui!

posted by Luiz Filho
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12:33 PM
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28.1.09  

Como acabar com o torcedor comum

Não é de hoje que estão tentando retirar o torcedor comum dos estádios. Aquele trabalhador classe média, que de vez em quando quer ver seu time jogar. Sentado nas duras arquibancadas sem cobertura e sem o mínimo de conforto. Cobra-se caro por algo inexistente e cada vez mais retiram o prazer de ir ao estádio com amigos e familiares. Alguns cronistas esportivos culpam baderneiros e bandidos infiltrados em torcidas organizadas, e que isso afetou grandiosamente a família brasileira expulsando-a das arenas esportivas. Sim, esse é um argumento comum dos encéfalos da mídia esportiva brasileira. Muito papo e pouca ação! Os próprios donos da verdade que, diante de cenas de barbárie e morte nos confrontos entre torcedores, esperneiam como baratas aflitas de que isso precisa acabar. Flávio Prado, comentarista do Mesa Redonda da TV Gazeta, enche a boca para dizer que “são bandidos e não torcedores”, mas esquece que o papel da imprensa esportiva muitas vezes alimenta essas rivalidades exarcebadas. Dando voz a jogadores provocadores e dirigentes que não medem suas palavras. “Isso vai vender um bocado de jornais a mais na edição de amanhã”. Então foda-se a rivalidade, deixem que se matem, é mais uma ‘boa’ notícia e desgraça vende.

Bom, que se dane a violência, isso já faz parte da cultura brasileira mesmo, é um problema social e sua solução está bem longe. Os papéis estão invertidos, dá-se valor ao banditismo e não àquele que se sacrifica e estuda. Podemos ver todo esse reflexo, num espelho gigante fincado em Brasília, naquelas pessoinhas sentadas em confortáveis cadeiras decidindo o que é bom ou ruim pra gente.

Onde estão as barraquinhas do Morumbi? Golpe de mestre do Habib´s?

Era uma tarde de sábado e decidi ir com minha irmã e meu pai ao estádio. Há algum tempo não fazíamos esse programa. Como minha irmã mora na Vila Madalena e sabíamos que não venderiam entradas na hora do jogo, por um argumento nada convincente da diretoria são-paulina, de que não queriam confusão de gente se apinhando pra comprar ingressos na última hora, fomos até o Pacaembu adquir nossas entradas. E o torcedor que sai do interior sem saber dessa informação? Sim, é obrigado a recorrer aos cambistas – outra mazela que nunca vai acabar.

Nem tinha almoçado ainda, mas minha alegria era saber que chegaria ao Morumbi e comeria um bom sanduíche de pernil e tomaria minha cerveja tranquilamente numa das dezenas de barraquinhas ao redor do estádio. Fome, muita fome era o que eu sentia, e quanto mais me aproximava do estádio sentia algo diferente - tristeza. Não via as lonas laranjas que servem de cobertura para as barraquinhas e nem o tradicional movimento de torcedores amontoados pedindo lanches, cervejas e refrigerantes. “Porra!”, exclamei, “Era o que faltava. Acabaram com o que de mais tradicional existia num estádio de futebol”. Não sei se isso aconteceu também, em dias de jogos, no Pacaembu e no Parque Antártica.

Ficamos encostados no muro, em frente a entrada para o setor azul da arquibancada tentando entender o que tinha acontecido. Passou um vendedor de cerveja, carregando seu pequeno isopor, que parou quando perguntamos quanto era. Não me satisfiz apenas com a cerveja e quis saber onde estavam as barraquinhas. “O Kassab mandou tirar tudo, irmão”, me disse olhando para todos os lados, preocupado com a fiscalização que podia levar todo seu material embora.

Eu ainda tinha fome e vi um carro com pessoas em volta e um movimento suspeito de pessoas mastigando. Eles estavam cometendo um crime. Me aproximei e pedi um cachorro-quente. Senti a tensão nos olhos do vendedor e de sua filha que o ajudava. Ele tinha um esquema perfeito. Ao menor sinal dos fiscais o vendedor baixava a porta traseira e encostava-se no carro como se fosse um torcedor comum. Medo! “A prefeitura alegou que ninguém aqui era autorizado a vender, eram irregulares e a vigilância sanitária também contribui multando todo mundo”, alegou o rapaz fazendo cachorros-quentes em tempo recorde. A CBF proibiu a venda de bebidas alcoólicas em torno dos estádios e dentro deles, mas elas estavam lá, muito fáceis de comprar.

Quando entramos no estádio as coisas começaram a fazer sentido. O Habib´s montou algumas lojas embaixo das arquibancadas e, durante o jogo, seus vendedores circulam por entre os torcedores vendendo caixinhas miseráveis a cinco reais. Uma esfiha fria, um kibe seco e uma porra de um pastelzinho de belém. Você não tem escolha amigo (a). O monopólio da culinária árabe está ali e, senão quiser engolir aquela merda à seco, trate de desembolsar mais quatro reais e comprar um refrigerante – deles, é claro. Torcedores não podem entrar alimentados no estádio, e também não tem o direito de escolha do que quer comer. Por que a prefeitura não emite alvarás e regulariza as barraquinhas? Numa feira de rua podem-se vender pastéis e num estádio eu não posso comer sanduíche de pernil ou de calabresa?

Já proibiram o torcedor comum de entrar com artefatos ditos perigosos numa arena esportiva. Seu filho não pode levar uma bandeira do seu time de coração, a não ser que ela meça dois por dois metros. Seu filho é perigoso e, de repente, ele pode decidir enforcar a pessoa ao lado com a bandeira. O torcedor comum não pode levar papéis picados para jogar arquibancada abaixo quando o time entra em campo, o papel picado é extramente perigoso, pode entrar na boca de alguém e mata-lo por asfixia. Não se pune os culpados, é mais fácil acabar com os meios. Se as torcidas organizadas utilizavam mastros de bandeiras para bater uns nos outros, pune-se o mastro da bandeira, ele é o culpado, então caia fora dos estádios que você não é bem-vindo. Logo mais vão proibir os cantos, porque alguns torcedores evocam a violência em suas músicas. “Ei, amigo, pare de cantar”, vai reprimir o PM. “Mas é só uma música do Katinguele que estou ouvindo no meu Ipod seu guarda”, retruca o marginal. “Estou avisando. É melhor você parar de cantar antes que eu arrebente seus braços e corte sua garganta. E dá aqui esse Ipod, é proibido ouvir música, ou outra estação que não seja a Globo”.

Enquanto isso em Brasília

Cesare Battisti, ao lado de Tomaz Bastos, assiste tranquilamente ao jogo do Napoli.

- Quer esfiha ou pastelzinho de belém, meu caro Cesare?
- Estou bem com minha calabresa. Vai, Napoli!

Arroto e cheiro de Green Label no ar.

posted by Luiz Filho
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4:15 PM
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27.8.08  

Resposta ao Dr. Antonio Teixera

Era uma bela tarde de quarta-feira. Os passarinhos cantavam, o sol brilhava forte, e a brisa gelada deixava a temperatura agradável. Mas os bits e bytes me tiraram dessa cena bucólica, e me empurraram diretamente ao fantástico mundo da nota de esclarecimento. Abri meu e-mail, e me senti o Diogo Mainardi sem grana e sem a proteção dos grandes advogados da Abril S/A. O Dr. Antonio Teixeira, presidente da Agremiação Renovo Sporting Clube, pediu uma retratação quanto ao meu texto “Da Bósnia ao Vietnã – Uma sentença de morte do futebol brasileiro”, onde apenas expus alguns dados referentes as transferências de brasileiros para clubes do exterior. Segue o e-mail na íntegra, e com os erros gramaticais.

Caro Snhor Luiz Filho,

Hoje estava eu pesquisando no sistema Google, e, com surpresa, me deparei com um artigo publicado ou postado com o seu nome Luiz Filho, na página do Blog(?) CANELADA -CRONICA DO MUNDO DA REDONDA MAIS AMADA DO BRASIL -DA BOSNIA AO VIETNÃ, UMA SENTENÇA DE MORTE DO FUTEBOL BRASILEIRO.
Ocorre nesse texto, ao se referir à nossa Agramiação Renovo Sporting Clube, o senhor além de usar um geito de ridicularizar dizendo ser bizarro a nossa instituição, ainda o inclui no contesxto daquilo que senhor chamou de " aterrorizante é que a maioria desses clubes que mandam jogadores para o exterior é pouco conhecida. São os famosos clubes de fachada ou, se preferir, caça-níqueis. Já ouviu falar no Astral Esporte Clube, ou no Chapadão de Goiás, ou no Minacu também de Goiás? E no bizarro Asociacion Desportiva Armegedon-Renovo do Distrito Federal? Isso mesmo, escrito erroneamente em castelhano. Você não leu errado. Continuando a lista dos clubes “formadores” de atletas têm ainda o Toledo Colônia Work/PR, Clube Andraus Brasil Ltda, Paraná Soccer ..."
Não sei porque sorte de leitura o senhor disse que o nosso clube se chamava "Asociacion Desportiva Armegedon-Renovo do Distrito Federal?" e reforça dizendo "é Isso mesmo, escrito erroneamente em castelhano."
Primeiro, nunca usamos a escrita ou lingua castelhana na nossa nomenclatura. SEgundo, gostariamos que senhor nos indicasse o nome do jogador que já vendemos, para quem vendemos e quando o fizemos, já que o sr. disse que fuça o site da CBF e aí descobriu, certamente, o que acabou escrevendo a nosso respeito.

Aguardamos sua resposta.
Obrigado, Dr. António Teixeira ; Presidente
Brasilia, 27 agosto 2008.



Caro Dr. Antonio Teixeira,

Você se referiu ao seu clube como Agremiação Renovo Sporting Clube, e, no meu texto, cito o Asociacion Desportiva Armegedon-Renovo. Ou são apenas nomes parecidos, ou o clube, do qual o senhor é presidente, sofre de transtorno bipolar grave. Como o senhor pediu que indicasse qual atleta que se transferiu para o exterior, segue acima a tabela da própria CBF indicando essa transferência no dia 14/02/2007, para a Associação Desportiva de Oeiras. Apesar do nome parecido com o de uma cidade paraense, Oeiras é um bairro da agradável cidade de Lisboa. Caso o senhor queira saber que fim levou Nadson Cícero dos Santos, entre em contato com o clube português (351) 214430219. Quanto acreditar que um nome seja bizarro, é uma opinião somente minha. Realmente Asociacion Desportiva Armagedon-Renovo é bizarro (Direto do Houaiss. Bizarro - Uso: informal. que é esquisito, estranho, excêntrico).

posted by Luiz Filho
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6:47 PM
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12.7.08  

O Sr. Beneducci

Escrito por Véio China

-Não fode! Não fode!

Ah, esse era o senhor Beneducci, meu avô. Costumava dizer isso em qualquer oportunidade e fosse qual fosse a situação. Bem, eu digo “era” porque ele não está mais aqui; faleceu no ano passado. Mas, eu sinto uma falta daquele velho boca suja e, na verdade, foi como ter perdido o meu pai apesar de ainda vivo. Talvez porque, verdadeiramente, tenha sido o Sr. Beneducci o meu verdadeiro pai.

E quando relembro do velho não há como esquecer da minha infância e parte da juventude. A primeira bola de futebol, o primeiro par de chuteiras foi meu avô quem me deu. Era ele que me acompanhava por todos os lugares, quem me incentivava, ou mesmo, me dava uns puxões de orelha quando julgava que eu precisava. E as orelhas não me doíam, diferentemente dos outros puxões que recebia. Talvez porque ele soubesse puxá-las com o mesmo afeto que me beijava. Mesmo quando eu aprontava algo das “boas” lá na escola municipal, e que merecia repreensão e, de quebra a obrigatoriedade da presença do responsável, quem estava lá? Claro! Meu avô. Portanto, quando ele se foi eu me senti um quase órfão dentro do estabelecimento alcunhado por “minha casa”.

Meu pai, um sisudo comerciante italiano – sempre gostou mais de aquecer suas palmas das maõs na minha bunda do que coçar seus dedos em meus lisos cabelos negros. Minha mãe, dominada como uma “Amélia” infinita, não me batia, mas, só o fato de se omitir e fazer vistas grossas as não menos grossas mãos do meu pai italiano já me encharcavam de ressentimentos com ela.

Com o tempo eu desenvolvi certa malandragem que me livravam em parte das doloridas palmadas nas nádegas. Então no primeiro estalo eu gritava à pleno pulmões. E, se assim fazia era porque sabia que o meu avô estava em casa e assim que me ouvia já tomava a minha defesa de forma contundente:

Não fode, Pietro! Não fode! Deixe o garoto em paz! – Ele ralhava gesticulando bastante para o meu pai.

E assim que meu pai o ouvia, como por encanto ou decreto eu me via livre daqueles seus dedos espessos e insensíveis. E isso me fazia pensar; Por que meu pai respeitava tanto meu avô? - Talvez tivesse apanhado tanto que guardava além das marcas, o respeito. Porém, por outro lado, eu achava quase impossível, já que meu avô sempre fora um sujeito alegre e fanfarrão. E até aquele seu “Não fode” me soava com certa doçura, isento de palavrão.

E foi dessa maneira que praticamente eu passei toda a minha infância. Meus pais sempre ausentes naquilo que se dizia com respeito à mim. Minha avó, viúva do meu avô, pouco ou quase nada tomava conhecimento. E, quando tomava, era unicamente para ralhar e me puxar as orelhas de um jeito que me doesse bastante. Portanto, diante de toda aquela situação o único amigo com quem podia contar era o velho Sr. Beneducci.

Às vezes, na calada da noite eu ouvia vozes vindas do seu quarto. Curioso, eu levantava nas pontas dos pés e me achegava, postando-me rente à porta, e sutilmente encostava o ouvido de forma que me permitisse escutar o que meu avô falava. Aí eu o ouvia, e a sua voz parecia irritada, exasperada: “Você não fode! Você não fode!”. Por certo, bem mais tarde é que fui descobrir a conotação daquele - “Você não fode” - que significava que minha avó não tava a fim de foder com ele.

Porém, o tempo que mais curti meu avô foi entre fase pré adolescente e até agora, antes dele ir. Lembro de uma passagem aos 17 dos 20 que tenho. Meus pais haviam viajado em férias para a casa da irmã da minha mãe e, também levaram minha avó. Logicamente eu não fora. Preterido como sempre, eu me ficava zanzando livremente pela casa, liberto das aporrinhações rotineiras.

E numa daquelas noites, sem que ele soubesse, meu avô entrou em meu quarto e deu comigo e uma amiga de escola num amasso pra lá de libidinoso, onde abaixei o sutiã de Silvia, e minha boca sugava os seus mamilos perfeitos – eu esquecera de trancar a porta – Ele, constrangido, fechou a porta sutilmente como não houvesse presenciado a cena. Logo após ouvi o ronco do seu automóvel em movimento. Talvez, passados uns 20 minutos, retornou e eu ouvi o barulho do portão eletrônico se fechando ao guardar novamente o carro. Em seguida eu e Silvia fomos surpreendidos por suaves pancadas na porta. Curioso, levantei e fui atender; eu imaginava que ele nos daria broncas das boas. Aberta a porta ele me sorria um sorriso impregnado de malícia, e ela se fazia tão latente nele como percorresse naquelas rugas de testa e flacidez das bochechas Assim que me viu, disse:

- Alessandro, eu trouxe pra você! Cuide-se! – Ele me passou a sacolinha plástica e eu a olhei – Farmácia da Glória – estava escrito.

Assim que me entregou, retirou-se acompanhado daquele sorriso maroto. Fechei a porta e abri o pacote e lá encontrei 5 invólucros de camisinhas. - Putz, ele era assim comigo e se preocupava para que nada desse errado, ainda mais porque estávamos à ponto de transar e, ele, sabia disso. Lembro ainda que ao ver o conteúdo, Silvia riu e disse: “Carácas, Lelê! Esse véio é muito liberal! Eu precisava de um avô assim!” - Eu ri também. Depois disso, transamos – E foi duplamente gostoso; pela preocupação do velho, e porque Silvia nos deliciou com o sabor da camisinha morango.

Em contrapartida, no dia seguinte, lá pelas 3 da madruga acordei com sede e vontade de água gelada. Levantei e fui até à cozinha e abri a geladeira. No silêncio da madrigada, pareceu-me ouvir vozes abafadas vindas da parte exterior da casa. Curioso, mas amedrontado, saí para o quintal e notei que os grunhidos vinham do quarto de Jurema – nossa empregada – Ao chegar próximo coloquei-me rente à porta e encostei o ouvido.

-Ah, fode! Ah, fode mais, Jureminha! – Claro! onde estivesse eu reconheceria aquela voz– Era do meu avô –

E foi assim que eu soube que o velho andava transando ou tentando transar com a empregada de bunda gorda e seios fartos. Evidente que não me atrevi bater na porta e perguntar-lhe se estava com as camisinhas – vovô era prevenido – e ainda mais; flagrá-lo naquela situação o deixaria constrangido.

Bem, o que é bom não dura para sempre e para tudo nessa vida há o prazo de validade. E infelizmente o do meu avô se extinguiu no ano passado. Á princípio começou a se queixar de dores diversas e de um mal estar que o deixava na cama por quase dias inteiros. Minha avó, adepta dos remédios caseiros, achava que a solução seria encontrada nos chás de erva-doce, cidreira, camomila ou de hortelã. Infelizmente não estava. Como todos estavam ocupados demais eu fui o único que se habilitou e marcou consulta com um geriatra. Lembro-me ainda que meu avô, mesmo gemendo e antes de entrar na sala do doutor, ficou de pé, olhos lascivos, dentes superiores mordiscando sistematicamente o lábio inferior, admirando os mágicos seios e pernas da sensual secretária. De engraçado naquele dia, só isso. O médico nos pediu os exames e através deles constatou-se que meu avô estava com câncer de próstata, e o pior, em fase terminal. No dia do seu enterro, eu que não choro por dor e nem por amor, chorei. Lembro que uns dois dias antes de morrer, ele me acenou que fosse até ele.

-Filho, faz um último favor ao seu avô? - Me pediu.

-Claro, vô! Claro!

Foi então que soube que ele gostaria de ser cremado e que suas cinzas fossem jogadas no gramado do Palestra Itália.

E assim eu fiz numa tarde quente de 5ª feira. Entrei no estádio com uma pequena urna e me dirigi o mais próximo do gramado. De lá, esperei que um vento forte zunisse. Foi curioso ver os jogadores pararem o treino para ver a nuvem de pó beijando o ar para depois se assentar na grama. Pra eles; poeira– Para mim; apenas o Sr. Beneducci, o meu avô, partindo,definitivamente.

Véio China é escritor, aposentado, e oxigena as idéias com litros de Blood Mary.
http://veiochina.blogspot.com/

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12:52 PM
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25.4.08  

Ahora tenemos Libertadores de verdad

Depois do desaparecimento de Pai Tobias de Oxossi, fiquei órfão de uma ajuda espiritual. Conhecer táticas, times, jogadores, treinadores, e o extra-campo não faz ninguém adivinhar o resultado de uma partida. No máximo serve para dar aquele palpite sem-vergonha do “sicrano é favorito”. As forças ocultas favorecem muito mais, já que no futebol está cheio delas. O Lula é um cara que gosta de falar que forças ocultas querem derrubá-lo. Ele deve se sentir o Getúlio. Pegue uma arma então.

Eu não poderia ir até Minas, já que Chico Xavier não está mais fisicamente entre nós. Me dirigi a rodoviária do Tietê, e comprei minha passagem para o Paraguai. Tinha apenas uma mochila com poucas roupas, um caderno de anotações, e um papel onde estava escrito “Pai Hemiliano y Ortega, Calle Cajazeras del Chicón, 33 – Ciudad de Hermosita”. Foram horas pra chegar. Paradas em postos suspeitos, travestis de beira de estrada, ovos coloridos, café aguado, e uma tremenda vontade de cagar que, por causa dos banheiros sujos, segurei até Hermosita.

Tirando uma velha gorda dominada por barbituricos, e que parecia sonhar com um ataque de ursos ferozes, a viagem correu bem. A velha se debatia, me empurrava, a briga era insana. Ela empurrava os ursos e imitava o som numa espécie de intimidação, até eu dar um soco em seu baço e acalmar a situação. Parou por meia hora, mas avistei uma poltrona vazia lá no fundo e me mandei. Preferi o cheiro de merda seca e mijo até a chegada.

Desci do ônibus com olheiras vampirescas e uma baita vontade cagar. Era uma rodoviária simples. Uma praça com um guichê, uns amigóns jogando baralho, que não sabia se jogavam ou palitavam os dentes, e gente suspeita para todos os lados. Todos me olhavam estranhamente. Olhei para dentro de um bar e vi um rapaz levantar a camisa e mostrar o revólver num gesto ameaçador. Ele abaixou a camisa, me encarou, tomou um gole de sei lá o que, mas pelo seu rosto inchado me deu a certeza que continha álcool naquele líquido transparente. Eu já suava frio antes, e aquela cena aumentou minha caganeira. Parei o primeiro moleque que passou a minha frente.

- Ei! Procuro Pai Hemiliano y Ort..

O viadinho nem me deixou terminar, e saiu correndo e falando algo em Guarani. Malditos paraguaios. Percebi que o garoto ficou assustado quando citei o nome do Pai de Santo paraguaio. Tive que perguntar aos amigóns que jogavam baralho e palitavam os dentes. Estava cada vez mais pálido, andava curvado, e apoiava minha mão direita em cima do estômago, numa maneira de acalmá-lo.

- Hermanos! Yo procuro Pai Hemiliano y Or...

Os amigóns me encararam, e os olhos esbugalhados responderam pelo medo que sentiram. Não sei se era minha figura amarelada com olheiras e corcunda, ou se realmente Hemiliano era alguém a se temer. A única resposta que obtive foi um “brujo hijo de puta” e uma mão que apontou para uma casa num morro no final da rua da rodoviária. Era longe demais para não cagar no caminho, olhei para o bar e pensei em usar o banheiro, mas o matador novamente sorriu, bebeu um gole daquela porra, tirou o revólver da cintura, girou o tambor, apontou aquela maldita coisa prateada em minha direção e fingiu atirar. O desgraçado sorriu com minha cara amarelada. Mandei um foda-se e entrei naquele bar imundo. Pedi una cerveza e dois copos. Minha vontade de cagar me deu coragem, então enchi o meu e o do matador, apertei sus manos e disse “hola, estay bien?”. El matador ficou mudo, mas brindou, e bebeu la cerveza. Dei um gole. O que atiçou ainda mais minha flora intestinal. Fui ao fundo do bar abri uma porta e entrei no banheiro. Não era limpo, tinha papel higiênico tipo lixa de skate, e umas Playboys paraguaias com páginas grudadas e bilhões de espermas inférteis.

Fluiu tudo suavemente como manda a regra do desespero fecal.

- Estay bien? – alguém perguntou do outro lado.
- Si, si – respondi do outro já me limpando.
- Me diceran que estay atrás de Pai Hemiliano y Ortega – disseram do outro lado
- Si, si – respondi colocando a calça e limpando o suor propicio do momento.
- Yo me voy com husted hasta la casa de Pai Hemiliano y Ortega – a voz disse.
- Si, si – respondi abrindo a porta e me deparando com el matador – Tujo? – questionei surpreso. Mais surpreso ainda fiquei quando ele me abraçou, e nem ligou para o cheiro de merda que saia num bafo quente de dentro do apertado banheiro.
- Husted és mi amigo. Todo los otros maricas tienes miedo de mi persona. Husted, no. No tieve miedo y mi pagou una cerveza – falou com o rosto endurecido de quem tinha 76 mortes no currículo. Inclusive a de um padre que insistiu muito para que ele se confessasse.

Como eu não queria perder o amigo, e nem ser o 77° da sua lista, paguei mais três cervezas, e saímos em direção a casa no morro. A casa de Pai Hemiliano y Ortega. Enquanto caminhamos el matador e eu conversamos. Um papo super agradável sobre seus assassinatos, e de como ele gostava de matar, e do seu arrependimento pela morte do prefeito Juan Aristizabal. Disse que gostava do prefeito, mas que serviço é serviço. Quando estava me contando sua audácia de matar um tira americano que estava a serviço da DEA, a agência americana que combate o narcotráfico, chegamos a porteira de entrada da casa de Pai Hemiliano y Ortega.

- Acá me fico! Ahora husted camina solo.

“Maldito matador medroso. Mata todo mundo e tem medo de um Pai de Santo”, pensei. Cumprimentei ele e disse que nos veríamos novamente.

- És un brujo maldito – disse el matador virando as costas e andando a passos rápidos.

Dei de ombros e subi a trilha que dava na casa de Hemiliano y Ortega. Era uma casinha simples. Com a pintura pra lá de velha, e as janelas caindo em desgraça. Mandei um “ô de casa” e esperei. Demorou uns cinco minutos e a porta abriu sozinha, numa ranger medonho. De lá de dentro saiu um gato malhado e cego. Alguém ou algo tinha arrancado seus olhos. Ele virou a cabeça na minha direção e mostrou os dentinhos afiados. Shhhhhh! Aquele pequeno animal não poderia me fazer mal. Uma voz veio de dentro da casinha detonada.

- Piedra Feroz, venga para dentro!

Piedra Feroz!?! O nome daquele serzinho escroto era Piedra Feroz. Ri por dentro para não deixar transparecer meu pouco caso com o gatinho cegueta.

- Que quieres acá? – retumbou uma voz grave que pegou Piedra Feroz em suas mãos, e saiu da casa. A voz grave era acompanhada de um senhor franzino, de bigodón e uma feição indígena.

- Pai Hemiliano y Ortega?
- Si, que quieres?
- Estoy acá para una consulta. En Brasil me diceran que tujo és o mejor em previsión futebolística.
- Si, si. Esto va te custar 150.000 Guaranis, y, sy quieres, también tengo artigos de la naique.
- No me gusta naique, señor! Yo preciso de las previsiones lo más rápido possible.
- 150.000 Guaranis, hijo, sy quieres tienes que ser así.
- Estay bien!
- Venga para mi casa entonces.

Entrei e senti o cheiro da morte. Tinha ratos mortos por toda a casa.

- Piedra Feroz és cego, mas és um gran caçador. – disse segurando e acariciando aquele gato cego.

Tentei entender porque ele deixava os troféus de Piedra Feroz espalhados pela casa, mas não tive coragem de perguntar. Não queria ter o mesmo final de Piedra. Hemiliano y Ortega foi até a cozinha e voltou com café fresco. Foi o que ele disse, mas não é o que eu imaginava. Fingi tomar. Ele foi até seu quarto buscar algo, aproveitei e joguei o café pela janela, quando ele voltou com um potinho de vidro, eu fingi que terminava o café. Fiz sinal de positivo pro velho e disse “muy bueno”, e ele me respondeu gritando “mentiroso hijo de puta”. Tirei os 150.000 Guaranis do bolso e acalmei sua fúria. Nunca deixe um macumbeiro furioso. Ele colocou aquele potinho de vidro em cima da mesinha que nos separava. Tinha um liquido dentro e duas bolinhas que boiavam numa espécie de dança mística. Cheguei mais perto e percebi uma forma parecida com anatomia humana naquelas bolinhas brancas. “No creo”, eu disse.

- Crea si. És los ojos de Piedra Feroz – falou numa calma que quase me fez pedir outro café, para dessa vez tomar.

- Entonces quieres uma ayuda para saber los resultados del juegos? És un apostador?
- No, no. Quiero ser el más preciso possible en las crônicas futebolísticas.
- El Futbol és como un passarito sien asas – filosofou chinesamente chacoalhando os olhos de Piedra, que miou, sentindo que parte do seu corpo estava presente.

Tirei do bolso o papel onde estava escrito os confrontos das oitavas de final da Libertadores. Ia passar para ele, mas ele fez um sinal negativo com a cabeça, e disse para eu ler. Hemiliano y Ortega era analfabeto.

- Bamos luego con está puerra!
- Si, bamos! Entonces...el primeiro partido és Lanús y Atlas. Que me diz?
Ele balançou o potinho e os olhinhos de Piedra giraram, quando terminou de balançar, colocou o potinho contra a luz que vinha da janela.
- Lanús! Los mexicanos no levam a siero el futbol. Próximo juego.
- LDU y Estudiantes.
Girou novamente os olhinhos de Piedra – Estudiantes!
- Como así? – resmunguei.
- Quien tienes Verón y joga el segundo juego em casa és favorito. Otro, bamos!
- Boca y Cruzeiro!
- No tienes dubida que és Boca – respondeu apontando para um pôster do Boca, que eu nem tinha percebido quando entrei.
- Cruzeiro estás mejor – retruquei
- El carajo su hijo de puta! – preferi não discutir, só pensei nos olhinhos de Piedra.
- Estay bien! América y Flamengo.
- Humm..hummm...preciso de más ojos para mirar tanta dificuldad. Hummm..hummm...miro que el Flamengo estás deviendo plata a sus jugadores. És malo, és malo. Y los mexicanos no levam a sierio el futbol. Hummm...hummm...Flamengo! Mas despues no va más adelante. Bueno, hable otro.
- Nacional y San Pablo – disse já querendo ir embora, e percebendo que minha grana tinha sido gasta em merda pura.
- Son seis títulos en campo. San Pablo passa más miro piedra em su camino.
- Quis dicer una dificuldad?
- No hijo de puta, piedras voando da arquibancada do El Nacional. Vamos luego, hableme más outro partido.
- Atlético Nacional y Fluminense.
- Los pozitos de arroz y los pozitos de coca? Me gusta más de la coca. Entonces és coca y pronto – enquanto ele disse isso, Piedra Feroz passou com um rato na boca. Mais um pra coleção fedorenta. – Cual és lo próximo juego, bamos.
“Enganador filho da puta”, pensei – Su madre – ele disse – Yo leio sus pensamientos, vierme.
- Ok! Santos y Cúcuta, y terminó.
- La tradición gaña por supuesto. Quieres más un cafezito?
- No yo tengo que volver a Brasil ainda oje.
- Entonces vamonos que el último ônibus sai ahora poco. Me voy con usted, estay bien?
- Si!

Fizemos todo o caminho de volta, eu, Hemiliano y Ortega, e Piedra Feroz em seu colo. Andamos silenciosamente, e eu também não queria mais conversa com o velhote enganador. Senti o dinheiro esvair-se como no golpe do bilhete premiado, e a canseira de uma viagem entre buracos, prostíbulos, e comida estragada pesando sobre meus ombros. Nos despedimos na praça da rodoviária, e corri, pois o último ônibus para o Brasil estava para sair. Estava já com o pé no primeiro degrau quando senti uma mão bater em minhas costas. Era el matador.

- Amigón, fica más un ratito?
- No puedo, la pátria me espera!
- Se és así entonces tudo bien. Mas fica con esta lembracita de su amigo acá.

Colocou uma bala de revólver em minha mão, e me deu um abraço caloroso. Subi e o ônibus partiu. El matador acenou para mim, ao longe vi Pai Hemiliano y Ortega caminhando em direção à casa do morro e acariciando Piedra Feroz. O ônibus estava vazio, sem velha gorda alucinada, e a viagem fluiu tranquilamente. Antes de pegar no sono senti uma imensa saudade de Pai Tobias.

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5:41 PM
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17.4.08  

Volta Corinthians! E o vôo de Laica.

Todo meu trauma futebolístico começou em 1983. Eu tinha sete ou oito anos, não tenho como lembrar, e não quis pesquisar. Quando se passa dos trinta esse tipo de preguiça é comum. Mas foi nesse maldito ano que aprendi o que é odiar um outro time de futebol. Até já escrevi sobre isso algumas crônicas atrás. Que um fantasma acompanhava minha vida na infância, e hoje sou o fantasma de outra criança – meu vizinho Vinicius de apenas 10 anos.

Melhor voltar antes que me perca. No ano de 1983 eu vi o Corinthians ganhar o bicampeonato paulista em cima do São Paulo. Dois anos seguido é demais, ainda mais para uma criança de oito anos que começava a compreender o futebol, e o que é rivalidade. Nesse dia chorei sozinho, deve ter sido meu primeiro em se tratando de futebol, o segundo foi em 1986 (maldito Zico), e o terceiro em 87 (ou 88?), quando o Brasil de juniores levou a pior numa final contra Portugal. Estavam todos reunidos na sala da pequena casa da Vila Fiat Lux, meu pai, meus tios, alguns vizinhos, e o pequeno Luiz aqui.

Findado o jogo, aquela tristeza momentânea tomou conta dos mais velhos. Momentânea porque os mais velhos já eram calejados, tinham visto vitórias e derrotas, e sabiam que aquilo era passageiro. Fui para o quintal sozinho e abracei uma cadela vira-lata chamada Laica. Era uma cachorra esquisita, com pêlo marrom claro, meio sujo, os dentes da mandíbula eram ligeiramente inclinados para frente, e as órbitas saltadas, o que me passava uma impressão maligna. Puxei a Laica para debaixo de meu braço direito e apertei, como se abraçasse o Dario Pereira. Ela não gostou, latiu fino e me mordeu. Talvez a filha da putinha tenha lembrado do dia em que a arremessei para a casa do vizinho. Como a Laica russa, a primeira cadela a ir ao espaço, que recentemente ganhou uma estátua em sua homenagem. Foi um vôo bem menor, de no máximo dois metros, e com uma aterrissagem perfeita no quintal da casa ao lado. Voltou sem dano nenhum.

Minhas experiências com animais na infância nunca foram boas. Fiz um gato fumar alguns cigarros, matei um sapo e o pendurei com um laço vermelho numa árvore, apenas para dizer que tinham feito macumba para algumas meninas, claro que no laço continha o nome de algumas delas, e estilinguei um indefeso little bird. Vou carregar esse karma pro resto da vida. Até me vejo no purgatório, cercado de animaizinhos, e todos eles conseguem falar, me cercam “Por que você me matou? Por que você me fez fumar? Por que você me arremessou no vizinho?”. Às vezes tenho a sensação que escuto essas pequenas vozes. Hoje jogo no time dos Ecos, mas não deixo de comer carne, se os leões podem, eu também posso.

Os anos se passaram, a rivalidade com o Corinthians cresceu junto com meu corpo magrelo de 1,83m, e o Brasil às vezes dá a impressão que também vai crescer. Um eterno Peter Pan do caralho esse país! Mas o que me deixa triste, é que o alvinegro da zona leste está decadente. A principio achei maravilhoso, tinha assunto pra zoar com seus torcedores, mas, depois, percebi o quanto estava errado. Esses dias um corinthiano veio falar do gol de mão do Adriano, eu virei e disse “Corinthians, agora, só no ano que vem”. Foi dizer isso e, repentinamente, uma tristeza abateu como o peso da gorda Joaniza (400 kg). Ontem assisti a derrota deles para o Goiás, e a possibilidade do adeus de mais uma competição, e a quase certeza de uma campanha pífia no Brasileiro da série B. Adiando, por mais um ano, nossa rivalidade. Minha em particular.

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9:07 PM
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4.4.08  

Sobre Hooligans, Barrabravas, Organizadas e outras merdas

Às vezes tenho receio em começar a escrever sobre certos assuntos, parece que atraio os fatos, ou talvez eles venham atrás de mim. Enquanto pesquisava sobre violência nas arquibancadas eis que olho para a TV e vejo palmeirenses e corinthianos protagonizando cenas lamentáveis de destruição num acanhado ginásio esportivo em São Bernardo do Campo. Era um simples jogo de futebol de salão. Essa violência toda no ser humano. Enquanto escrevo o Brasil se pergunta quem arremessou a pequena Isabela do 6° andar, Tibetanos apanham e morrem pedindo por um país livre, e a Dilma Roussef, como um trator russo, prepara mais um dossiê para calar a boca da democracia. Vivemos numa época nefasta, onde os princípios morais estão embaralhados. Severino é do bem disse o Barba.

Se lá em cima não existe principio, o que dizer daqui debaixo onde a educação é péssima e o mau exemplo é que se sobrai. Eu tinha 10 anos quando meus pequenos olhos curiosos presenciaram a primeira barbárie no futebol. Era 1985, e a Juventus de Turim iria fazer a final da Copa dos Campeões da Europa com o Liverpool. A Inglaterra era governada sob a mão de ferro de Margaret Tacher, e vivia um dos seus piores períodos, com taxas de desemprego beirando os 20%, uma das piores da Europa. Antes do começo do jogo, aliás, dias antes, hooligans ingleses bebiam, brigavam, e até estupraram uma pequena belga. No estádio de Heysel, em Bruxelas (Bélgica), a selvageria inglesa continuou numa escala maior e mais agressiva. Meus pequenos olhos de 10 anos viram um torcedor atônito, que pedia ajuda aos policiais, tomar uma pedrada na nuca e cair ensangüentado enquanto, não satisfeitos, mais alguns hooligans o massacravam com barras de ferro. Não sei dizer, mas talvez esse rapaz esteja entre os 38 mortos, ou um dos 454 feridos daquela batalha feroz.

Na Argentina

“Llegaran los borrachos del tablón”, cantavam eufóricos alguns barrabravas da torcida do River Plate. Traduzindo, da algo do tipo “Chegaram os bêbados da bebedeira”. Foi com esse entusiasmo que a barra (o mesmo que torcida organizada aqui) Banda de Gonzalo entrou nas arquibancadas do estádio do Vélez, em partida contra o Racing. Foi o estopim para que os torcedores comuns do River devolvessem com um canto “No son de River los hijos da puta”. O que desencadeou numa luta com paus, facas e socos. Ninguém morreu, mas as cenas que se seguiram chocaram. Um rapaz com o rosto cheio de sangue, não conseguia ficar em pé, e rolava seu corpo pela arquibancada para tentar fugir do tumulto.

A Banda de Gonzalo é uma subdivisão do Borrachos Del Tablón, a principal organizada do River Plate. Com a morte e prisão de alguns lideres dos Borrachos, deu-se então uma luta interna e uma clara divisão, para ver quem ficaria com o poder e a liderança da torcida. Surgiram então a Banda de Gonzalo, referência a Gonzalo Acro, morto com três tiros numa briga de torcida, e a Banda del Oeste. Os del Oeste são liderados por Martin Stambuli, conhecido como El Turco del Oeste, e hoje querem mais espaço, e entradas gratuitas para acompanhar jogos do River. Vivem hoje, o que toda a Argentina sente nessa divisão política entre os Panelaços e os que apóiam a Senhora Kirchner.

No Brasil

Eu já não tinha mais 10 anos. Fumava cigarro de cravo, e bebia menta nos bares pés sujos da vida. Mas lembro quando tudo começou. Talvez não seja quando começou, mas que foi o divisor de águas na guerra entre torcidas organizadas aqui no Brasil. Num jogo pela Copa São Paulo de Juniores em 1993, um infeliz e mal intencionado membro da Independente (São Paulo FC) arremessou uma bomba caseira para dentro do estádio Nicolau Alayon em Santo André. A bomba explodiu a cabeça do corinthiano Rodrigo de Gasperi que, com 13 anos, virou prematuramente nome de uma praça no Jardim São Ricardo em Pirituba.

Dois anos após esse fato, membros das organizadas do Palmeiras e do São Paulo, mostraram mais uma vez que a imbecilidade humana não tem limite. Talvez tenha sido o caso que mais chocou pela brutalidade das cenas ao vivo. Paus e pedras, sobras de uma reforma no Pacaembu, viraram armas nas mãos de enfurecidos garotos violentos com auto-estima abaixo de zero. Foi uma sucessão de horror e covardia que culminou com a morte do são-paulino Márcio Gasparin da Silva. Não virou nome de praça, mas perdeu massa encefálica, entrou em coma e morreu dois dias depois da paulada que recebeu enquanto tentava fugir de dezenas de agressores.

Daí em diante a coisa debandou, mesmo com o Ministério Público paulista controlando essas facções (criminosas?), pessoas continuam morrendo. Logo mais chegamos às centenas de mortos. Logo, logo.

Sobre Hooligas, Barrabravas, Organizadas e outras merdas

O traço comum nessa rapaziada é que falta ocupar a cabeça com outra coisa. Se fizer uma comparação entre vândalos ingleses, argentinos e brasileiros, a percepção é a de que são jovens de periferia com baixa escolaridade e desempregados, se empregados vivem de subempregos que mal pagam à comida mensal. Isso somado a uma provável desestrutura familiar, e a baixa auto-estima, descamba em acreditar que a violência é o caminho. Ninguém acolheu aquele garoto, mas o líder da organizada lhe deu um abraço, uma camiseta, um grito de guerra, e um inimigo a quem se deve odiar. Ele acredita na sua torcida. Por que acreditaria em professores e governantes?

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4:32 PM
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25.3.08  

100 anos de um (quase) grande clube

Seo Laércio entra no bar e cumprimenta a todos, num cerimonial que se repete há mais de 15 anos desde que veio de Belo Horizonte para trabalhar na capital paulista. É hora do almoço, e o alfaiate repete o pedido diário – Aquela branquinha, por favor – antes de beber sua cachaça, ele joga um pouco no chão. Vai perguntar para o Seo Laérico se “é para o santo?”. Ele vai abaixar os óculos até a ponta do nariz, olhar diretamente nos teus olhos, e com uma resposta seca dirá - Uai! Essa é para o Galo, e sempre será.

Hoje o Atlético Mineiro completou 100 anos de história. Diversos títulos, e diversos quase títulos que fazem à memória do atleticano gritar de desespero. Diferentemente da filosofia mineira de comer pelas beiradas, chegar de mansinho e fazer as coisas sem estardalhaço, o Atlético foi o menino prodígio de Minas Gerais, e do Brasil também. Sempre primeiro em tudo, mas só que sem dar continuidade a nada. Não vou falar de campeonatos mineiros, porque não vale a pena comentar sobre um campeonato onde apenas dois times fazem rodízio ano a ano pra ver quem é o melhor. Dou um brinde para quem disser qual é o outro time.

O precoce

Foi no ano de 1950 que o Galo teve sua primeira precocidade. A convite do jornalista Eld Kalteneker, o clube viajou para uma Europa ainda abalada pela findada II Guerra Mundial. Foi à primeira equipe brasileira a excursionar pelas terras geladas. Ganhou o título de “Campeões do Gelo”, e um calote que deixou o time literalmente preso por quase dois meses na Alemanha. O jornalista disse que ia acertar alguns amistosos, e desapareceu, deixando todos na mão, e sem grana.

O rapidinho Galo, que poderia ser coelho (apelido do América-MG), com o comando do eterno Telê Santana, conquistou o primeiro título brasileiro em 1970. Com um regulamento estranho, onde três times disputaram a final (São Paulo, Botafogo-RJ e Atlético), o time mineiro levou a melhor. Com um gol de Dario, o Atlético levantou a taça em pleno Maracanã em cima do clube carioca.

E na velocidade de uma briga de galo, esporou mais um título precoce, foi o primeiro clube brasileiro a ganhar uma Copa Conmebol (1992), a atual Copa Sulamericana, que também já foi chamada de Copa Mercosul. O Atlético ainda a venceria novamente em 1997, num jogo onde a pancadaria comeu solta contra o Lanús-Arg. No jogo de ida, na Argentina, após o placar apontar 4 a 1 para o Galo, houve uma briga generalizada que sobrou até para o técnico Émerson Leão. Por que será que Leão não gosta de argentinos?

O quase grande clube

O problema do menino precoce do Galo é de não ter uma continuidade de grandes títulos. Apesar dos diversos títulos mineiros (39 no total), o clube amarga os quase títulos. Foi assim no Brasileiro de 1977 contra o São Paulo, numa final disputadíssima, em que os dois não contavam com seus maiores ídolos na época – Reinaldo pelo Atlético, e Serginho pelo São Paulo. O time mineiro tinha o melhor time, a vantagem de mandar a final em seu território, e o regulamento a seu favor. Mas perdeu na disputa de pênaltis. Em 1980 o drama foi além. O Galo tinha um esquadrão formado por Cerezo, Éder, Nelinho, Paulo Isidoro e Reinaldo, e o placar de 1 a 0 a favor no primeiro jogo contra o Flamengo. Na grande final, em pleno Maracanã lotado, e com três jogadores expulsos durante o jogo (todos do Atlético), a equipe mineira viu escorrer por entre os dedos mais um título brasileiro. Em 1999, o algoz foi outro grande do sudeste brasileiro. Depois de despachar Cruzeiro e Vitória, o Atlético faria a final com o Corinthians. O clube paulista, com melhor campanha, tinha a vantagem do empate. O Atlético ganhou o primeiro jogo (3 a 2), reverteu à vantagem, mas perdeu por 2 a 0 o segundo jogo. Mesmo conseguindo prorrogar a decisão para um terceiro embate, o Galo não conseguiu sair do zero a zero deixando o título para o Corinthians.

Seo Laércio não se lamenta, assim como todos os atleticanos. Como todo bom mineiro eles esperam tranqüilos, comendo pelas beiradas e com um pão de queijo na mão. O Galo foi precoce em 1950, 1971 e 1992, então fiz meus cálculos e percebi que de 21 em 21 anos o Atlético conquista algo inédito. Atleticanos, se preparem, em 2013 vocês terão algo para se orgulhar. Só rezem para o Ziza Valadares não estar na direção do grande Galo até lá.

posted by Luiz Filho
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5:27 PM
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14.3.08  

Na escadaria da Gazeta eu sentei e chorei

Era uma noite agradável. Nem fria, nem quente, mesmo com a proximidade do verão. Era 9 da noite e meu corpo entrava em ebulição, toda vez que eu dava um gole no Bombeirinho. Aquela mistura de pinga com groselha rasgava internamente minha garganta. Mas eu não estava nem aí. Tinha 18 anos nessa época. Nessa idade era óbvio que eu, e toda juventude, dávamos de ombros para qualquer merda. Quanto mais perigoso melhor. Lembro direitinho que chegamos ao Pupy´s, em frente à TV Gazeta, lá pelas 19h30. Eu, Rafael, e o Cabelinho. O evento principal daquela noite seria apenas a meia-noite, mas nosso combinado foi chegar cedo para “esquentar as baterias”. Entre as seqüências de cerveja, intercalávamos bombeirinhos e marias moles.

Já era 21h30 do dia 12 de dezembro de 1993. As marias tinham me deixado mole, ou era aquela turba que me excitava, mas quando aquele rapaz sem dente ajoelhou no meio da Avenida Paulista e abriu os braços como um Jesus ébrio, me deu vontade de abraçá-lo. Tínhamos o mesmo ideal, mesmo com nossa diferença social. Estava sem camisa, e uma bandeira do São Paulo FC amarrada em seu pescoço dava um ar de super qualquer coisa nele. Ele continuava ajoelhado de braços abertos, uma mão vazia, e na outra uma garrafa cheia. Aproximei-me, agarrei-o pelo pescoço como num abraço fraternal, arranquei aquela garrafa sem rótulo de suas mão e mandei um gole quente que, naquele momento, não sabia distinguir o que era.

Já tinha me perdido do Rafael e do Cabelinho. A cada minuto aumentava a multidão contagiada por sei lá o quê, mas era uma alegria atípica. Todos sorriam, todos se abraçavam, todos cantavam. Não seria difícil achar o Rafael, um ano antes, empolgados pela conquista do primeiro Mundial Interclubes, compramos tecidos, e mandamos costurar uma bandeira enorme com as três cores mais lindas. Não tem jeito, é a combinação perfeita. Como se o mundo fosse de paz e harmonia. Negros, Brancos e Índios. Olhei para o lado e vi o Cabelinho num transe de vandalismo suave. Suave porque ele se juntou a um grupo que balançavam os carros que ainda insistiam em passar por ali. Nada de xingamentos e chutes e vidros quebrados e tiros e pedradas. Apenas carros sendo balançados. Eu, no meu transe ébrio, apenas sorria com as tetas de uma gorda que balançavam dentro do seu Opalão azul metálico.

A CET viu que não tinha mais jeito, estavam providenciando o fechamento do quarteirão. Sentiram que a multidão tinha tomado aquele pedaço da Paulista, e que se continuassem passando mais carros, podia dar em merda. Como sempre. A merda quase aconteceu com um garotinho que subiu na caçamba de uma caminhonete. Percebendo que várias pessoas começaram a subir na caçamba, o motorista, desesperado, acelerou e fez com que o garoto desse um giro no ar e caísse com a cabeça no asfalto. Pensei no pior na hora que escutei aquele barulho oco. Umas 10 ou 20 pessoas correram atrás da caminhonete, numa espécie de vingança estúpida. Assim como todas as vinganças.

O jogo entre São Paulo e Milan estava para começar. Eu, Rafael e Cabelinho nos ajeitamos no lugar mais próximo, para garantir uma visibilidade bacana do telão. Nos enfiamos no meio da escadaria da TV Gazeta, um pouco mais alto que o resto das pessoas. Várias vezes durante o jogo olhava para trás, e via aquele mar sem fim de cabeças e cantos. Chegamos cedo, e bebemos mais que muita gente ali, então merecíamos aquela posição privilegiada. O jogo todo foi tenso, gol para um lado, e gol para o outro, gol para um lado e gol para o outro. Já estava próximo do final, 2 a 2 no placar e o Milan jogava melhor àquela altura. Era uma massa de gente silenciosa, um silêncio que me dava medo. A tensão era óbvia, ao final do jogo, teríamos disputa de pênalti. Mas foi num lance maravilhoso, desses que só ocorrem no futebol, que Muller, numa disputa de bola, pulou de costas em cima do zagueiro que foi dar apenas um chutão na bola. Esse salto pra cima do zagueiro foi o golpe de sorte. A bola bateu no seu calcanhar, e entrou no gol. Puta que o pariu! Nunca senti aquela sensação na minha vida. Eu não consegui gritar gol. Apenas sentei na escadaria da Gazeta e chorei.

posted by Luiz Filho
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5:44 PM
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26.2.08  

Os Deuses contra o Pragmatismo

Certo dia li uma crônica do Veríssimo (o filho), acredito que foi no Estadão do domingo retrasado, sobre enfrentamento de gerações do futebol. Quem levantou a bola foi o Kfouri em seu blog, Veríssimo matou no peito ajeitou e lançou pro ataque. Os dois caíram no ponto em comum de eternas discussões de mesas de bar, e mesas redondas televisivas – Qual seleção brasileira foi a melhor? Veríssimo ampliou a discussão. Queria ver a seleção de 58 contra a de 70, e saber qual Pelé se sairia melhor. O garoto, ou o já amadurecido craque que conduziu o Brasil ao Tri-mundial, ao lado de Gérson e cia.

Recebi a bola pela lateral-direita, na altura do meio de campo, e vejo que tem um corredor livre a minha frente. Lendo essas comparações me vieram à cabeça as gerações dos grandes clubes do futebol brasileiro. Eu nasci em 75, então conheço muito mais as gerações dos 1980 pra cima. O que veio antes conheço pelos noticiários esportivos, e pela memória do meu pai que adora futebol, e dos amigos mais velhos, que também compartilham essa paixão.

Os tempos eram outros, ditadura no Brasil, Guerra do Vietnã, Hippies, Lutas e mais lutas pela liberdade e pela igualdade social. Isso se refletia no futebol? Acredito que sim. A criatividade e a molecagem brasileira para bater uma bolinha, sempre foram sinônimos de abuso. Um abuso bom, gostoso de se ver. Era a liberdade, o jogo aberto, e todo time tinha seu craque, ou seu símbolo de garra e amor ao clube.

Como não lembrar do Santos FC dos anos 60 com Pelé, Zito e Pepe, infernizando os adversários e ganhando tudo e mais um pouco daquela década. A Academia Palmeirense dos anos 70 de leão, Dudu, Leivinha, Luís Pereira e Ademir da Guia. Jogavam um futebol envolvente, que levou o Palmeiras ao bicampeonato brasileiro de 1972/73. Ou o Internacional comandado por Falcão, que jogava de cabeça erguida e não leva cartões. Pode-se dizer que foi uma década Colorada? Talvez. Mas esse time foi tricampeão brasileiro (1975/76/79). Ainda nos anos 70, teve também o Cruzeiro de Piazza, Dirceu Lopes, Palhinha e Nelinho campeão da Libertadores de 76.

Já no final dos 70, indo para os 80, teve a geração que comandou o Galo, que juram que foram injustiçados em duas finais de brasileiro (77/80). Aquele time de Cerezo, Éder e Paulo Isidoro levou o campeonato mineiro de 78 a 83, deixando os cruzeirenses com olhos lacrimejantes por anos a fio. Começo dos anos 80, e o Brasil começa a acenar, meio que sem jeito, para a democracia. Não a corinthiana, claro! Mas vale lembrar do time de Sócrates, Vladimir e Casão, bicampeão paulista 82/83. E que só não ganhou mais por excesso de liberdade. Os 80 foram de do Flamengo de Zico, Júnior, Mozer e Leandro. Quatro Brasileiros na mesma década (80/82/83/87, esse último ainda é dúvida), e de quebra levantaram a Libertadores e o Mundial de 81. E o Grêmio de Hugo de Leon, Renato Gaúcho e louco Mazaropi no gol. Sem Renato, levaram o Brasileiro de 81, e depois, já com o galã, conquistaram a Libertadores e o Mundial de 83. Ainda teve a molecada comandada por Cilinho, e um gênio do ataque chamado Careca e um eficiente Pita no meio, que, apelidados de Menudos do Morumbi, foram campeões brasileiro de 86.
E chegaram os anos 90. Caiu o muro de Berlim, o sonho de um mundo Comunista foi pra cucuia, o Capitalismo se fortaleceu, o planeta começou a conhecer a palavra globalização, e com ela todos os seus sentidos – Objetividade, Eficiência e Resultado. Alguns anos depois chegou à internet, e o mundo emburreceu. Seria muita informação de baixa qualidade? Ou busca e mais buscas insaciáveis pela transa da Cicarelli, ou da última de Paris Hilton sem calcinha. Comecei a divagar! Mais objetividade, eficiência e resultado, meu caro.

O começo dos anos 90 ainda tinha alguns resquícios das décadas anteriores. Os grandes treinadores ainda eram vivos, e uma pequena parcela de craques insistia em dar seus últimos dribles. Telê Santana era o expoente maior daquele São Paulo bicampeão mundial (92/93) e brasileiro de 91. Se for observar, no papel, o time não tinha grandes estrelas, a não ser Raí e Muller. Era uma equipe bem treinada pelo Mestre, e que jogava fácil. O pragmatismo tomou conta do futebol a partir dos anos 90. Virou a geração de busca por resultados, do futebol eficiente. Um dos maiores expoentes dessa geração, se não o maior, é Luxemburgo. Sempre metido em clube empresas, montou times que tinham a finalidade de ganhar, e nada mais que isso. Foi-se o tempo dos ídolos e do amor ao clube.

Inegável que aquele Palmeiras/Parmalat jogasse um bom futebol, e que foram novamente bicampeões brasileiro (93/94), ou Corinthians/MSI bicampeão brasileiro 98/99 e, depois, com a máfia russa em 2005. Foram times montados para serem campeões e nada mais que isso. O pragmático Luxemburgo, ainda montou os times do Cruzeiro, que em 2003 ganhou o Mineiro, a Copa do Brasil, e de lambuja o Brasileiro. Feito conhecido, por eles, como a tríplice coroa. Na mesma toada da busca incansável pela eficiência, os gaúchos tinham outro representante – Luiz Felipe Scolari. Treinou o Grêmio com tamanha obediência tática que, mesmo com uma equipe individualmente razoável, a não ser pela cabeça grande de Jardel, conquistou o Brasileiro de 96, a Libertadores de 95 e a Copa do Brasil por duas vezes (94/97).

Chegamos no 00 e as coisas pioraram. Inegável que aquele Santos de Robinho, Diego e cia era bom, mas durou um ano. Se jogassem mais tempo fariam frente à geração de Pelé? Esse São Paulo bicampeão brasileiro, campeão mundial e da Libertadores, que tem como único ídolo do país Rogério Ceni, ganharia do tricolor de Telê, ou de Dario e Oscar? Qual Grêmio venceria a batalha, o de Hugo de Leon, ou de Scolari? O Cruzeiro montado e desmontado de 2003, contra o Cruzeiro de Nelinho? O Corinthians do Doutor encararia pau a pau o time de Marcelinho Carioca?

Seria bonito de ver um campeonato onde gerações de times se enfrentassem, mas aqui nessa mesa de bar só temos espaço para suposições. Garçom traz mais uma gelada!

Ps: se esqueci de algum time me perdoem.

posted by Luiz Filho
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3:57 PM
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13.2.08  

Duas Copas. Um sonho

Até que enfim o ano começa para o futebol. Não quero desmerecer os campeonatos estaduais, mas, sinceramente, não vale à pena perder tempo com eles. Apenas nas finais, e olhe lá. Ou você acredita que comentar Palmeiras e União do Piqueri, Flamengo e Catadão de Bangu II, Atlético e Queijo Minas, seja algo realmente bom. Vai lá! Chega a dar dor de cabeça. Jogos e mais jogos que não levam a nada, e não tem como fazer uma análise mais profunda dos times. Tirando os clássicos, é retranca e sufoco. Vamos lá!

Copa do Brasil

Como diz o Cléber Machado “é o caminho mais curto para disputar a Libertadores”. Realmente, passa ano, vem ano, e a mesma frase roda em tudo quanto é canto do jornalismo esportivo. É mais curto, mas também é difícil pra cacete, claro que tirando esse começo onde times grandes enfrentam Pirambus da vida. Mas depois que vi o Paulista e o Santo André serem campeões, não duvido de mais nada. Esse ano promete, já que muitos times que não estão na competição continental, se reforçaram bem e, com certeza, a prioridade é conquistar a Copa do Brasil. Esse ano nenhum time considerado pequeno vai surpreender. Certeza! Segue a lista que Pai Tobias mandou lá de seu terreiro em Embu das Artes. E como ele não é besta, chamou os santos para analisar apenas os principais concorrentes.

Internacional – Está com a mesma base do ano passado, um elenco forte, e o coração partido por não estar na Libertadores desse ano. Promete ser um dos finalistas.

Grêmio – Mata-mata é sinônimo de Grêmio. Apesar de não ter um time bom como no ano passado, sempre complica com a raça dos pampas. Chega nas quartas.

Palmeiras – Junto com o Inter, é o melhor elenco da competição, mas tem um técnico especialista em amarelar em torneios eliminatórios. Pode ser que chegue à final, caso não encontre o Arapiraca no caminho.

Corinthians – Ao contrário do Palmeiras, tem um técnico que é especialista quando o assunto é drama. O complicado é a baixa qualidade técnica do elenco, e de ter um atacante que não faz gol. Pai Tobias pede cautela.

Atlético PR – Vem arrebentando no Paranaense, mas...

Atlético MG – Sem dúvida nenhuma cai antes das quartas.

Botafogo – Vem jogando bonito, e tem um bom técnico, apesar de não ter nenhuma estrela no elenco. É um dos que podem chegar às fases finais, e fazer feio. Tem amarelado muito ultimamente.



Copa Libertadores da América

Ainda é cedo para se tentar prever algo em relação à competição continental. Claro que existem os favoritos, se é que isso existe na Libertadores depois do Once Caldas. Pai Tobias recebeu uma alma de uma prostituta colombiana que rondava seu terreiro, y dice num portunhol arrastado “que vengam las picas”, antes de desmaiar e deixar por escrito algumas consideraciónes sobre las equipos brasileñas.

Cruzeiro – Caiu em um grupo relativamente fácil, apesar de ter o San Lorenzo (Arg), que ontem tomou olé do Caracas (Ven), o time mineiro não deve ter problema para se classificar, e nenhum tipo de trauma. Agora, para chegar pelo menos até a semifinal, vai precisar mostrar um pouco mais de bola.

Flamengo – Manteve a base do ano passado, fez boas contratações para a zaga, e meio de campo, e vem jogando leve. Apesar de que jogos do Carioca não servem de parâmetro para nada. Vai ter problema apenas com o Nacional (Uru), e se jogar de salto alto o Cel Bolognesi mete bala neles. Na fase final promete, mais pela torcida do que pelo time. Foi assim com o Grêmio ano passado, e vai ser assim com o Flamengo.

Santos FC – La putana deu uma rodopiada cuando hablamos de Santos. Vai ser uma primeira fase nebulosa, de um negrume ácido e inquebrantável. Se o time da baixada passar da primeira fase, será na base do sufoco, numa disputa acirrada com o Cúcuta.

São Paulo FC – Quase igual o Flamengo, tirando algumas coisas. O time manteve a base, fez boas contratações, montou um time de aluguel para a Libertadores, mas vem jogando pesado. Caiu num grupo sinistro, onde não se sabe no que vai dar. É o favorito do grupo, mas precisa jogar mais futebol.

Fluminense – Vai ter que jogar muita bola pra sair ileso desse grupo. Com certeza o mais difícil da primeira fase. Tem uma boa equipe, equilibrada, com ótimos atacantes, e o único meia decente do futebol brasileiro – Tiago Neves. Pega pela frente a LDU (Equ), que não é a mesma de dois anos atrás, mas é bem chata quando joga em casa, o Libertad (Par), que vem crescendo ano após, e o Aresenal (Arg), que surpreendeu no ano passado ao vencer a Sulamericana.

És esto! Que venga la suerte de la chiquita jojotuda colombiana.

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5:17 PM
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30.1.08  

Entre o passado e o presente

Sete horas da manhã, e alguma coisa estava errada. Nunca imaginei que um dia seria acordado por pancadas de boxeadores. Não nesse horário. Olhei de soslaio para a janela, e percebi que o barulho dos socos vinha da academia ao lado da pousada. Se é que se pode chamar aquele lugar que escolhemos para descansar de pousada. Na verdade não foi uma escolha, era ali que nosso dinheiro cabia. Depois de perambularmos por alguns hotéis, e sentir que nosso mísero dinheiro não daria para mais nada além de dormir, o que seria de uma crueldade grande para com dois grandes bebedores de cerveja perdidos numa cidade litorânea. Foi então que encontramos a Sobre as Ondas, com placa de “Sob nova direção”, e um velhinho sentado na varanda, que até hoje me pergunto se estava vivo ou empalhado. Íamos e voltávamos e lá estava ele sentado na varanda. Realmente um buraco. Anos depois, mais exatamente em 2005, descobri que a polícia prendeu na Sobre as Ondas, dois integrantes do PCC com quilos de dinamite suficientes para implodir a Vila Belmiro.

Tenho um ditado que carrego comigo, em algum lugar perdido dentro da cabeça, que diz o seguinte – Na roubada tudo flui melhor – Roubada é quando você tem um objetivo, mas não os meios necessários para se chegar a ele, e nem um plano, mesmo que seja um rascunho e, por mais que você tente, um plano B ou C não daria certo. E foi nessa condição que eu e Pablo Nacer saímos de São Paulo rumo a Santos, para coletar informações para o livro-reportagem sobre Luis Alonso Perez, o Lula. Técnico do Santos FC na época de ouro do glorioso peixe. Até hoje tratado com desdém na memória de santistas e, também, da imprensa esportiva. Quando se fala em Santos FC dos anos 60, logo vem à memória Pelé, Pepe, Dorval, Coutinho e cia. Nada de Lula. Diziam que ele dormia no banco, e que jogava as camisas para o alto, e quem pegasse era o titular. Será mesmo?

O bom daquele buraco é que era próximo a Vila Belmiro. Era só caminhar pelo Canal 1, que em 15 minutos estávamos lá. Nosso trabalho de coletar e checar informações, entrevistar ex-jogadores, amigos e parentes do Lula ainda estava no começo. Nosso contato dentro do Santos FC era a Regina, secretária da diretoria santista naquela época, e talvez até hoje. Regina tem cara e jeito de secretária, mas naquele dia ela estava vestida com a camisa do Santos FC, era dia de jogo, e percebemos uma movimentação eufórica por entre aquelas salas. Tudo ali dentro parecia que tinha parado no tempo. As máquinas de escrever, os telefones com discos, os armários que mais lembravam uma repartição pública e, principalmente os funcionários. Muitos ali são ex-jogadores do próprio time. Enquanto Regina não chegava para nos atender, eu e Pablo ficamos sentados observando uma porta de madeira gigantesca com o símbolo do Santos FC talhado na própria porta. No alto lia-se “Presidência”. Era ali dentro que o destino dos jogadores era traçado.

Depois de atendidos, fomos pesquisar os arquivos do Santos FC. Fichas e mais fichas de jogos amareladas pelo tempo. Aproveitamos para entrevistar o Formiga, que até hoje cuida do departamento amador do time, e também o Zito. Esse que foi um dos melhores volantes do mundo mantém seu jeito sisudo de quando ainda era jogador. Tudo terminado por ali, voltamos até a sala de Regina para agradecer o apoio e, para nossa surpresa, ela nos convidou para assistirmos o jogo entre Santos FC e Paraná. Anotou nossos nomes e colocou na lista de convidados. Arquibancada coberta, cadeira sentável, e chopp.

Ainda tínhamos mais uma entrevista para fazer, desta vez um pouco mais afastada dali, mais exatamente em São Vicente. Chegamos naquela casa simples, de portão baixo, e fomos atendidos por uma senhorinha simpática de nome Claudina.
- Pois não?
- Oi! Nós que ligamos para entrevistar o Mengálvio.
- Ah, sim! Só um minuto que vou chamá-lo.
Esperamos ali na garagem mesmo, quando de repente sai um homem grande, rosto amassado pelo sono, sobrancelhas peludas, beiços enormes e os joelhos inchados. “Então é assim que vive um craque do passado?”, pensei. Claudina trouxe umas cadeiras e ficamos conversando com Mengálvio por ali mesmo. Esse que foi um dos maiores meias do futebol brasileiro, com três títulos mundiais (62/63 pelo Santos FC, e 62 pela Seleção), agora estava sentado calmamente na minha frente. Não pude deixar de sentir orgulho por aquele homem que teve sua carreira interrompida brevemente. Pancadas e mais pancadas fizeram o joelho de Mengálvio esfarelar. Se fosse jogador hoje em dia, com a medicina e técnicas de fisioterapias mais avançadas, com certeza sua carreira duraria mais. Quanto valeria um jogador como ele hoje em dia?

Sai de lá com uma tristeza amarga no coração. Voltamos para a pousada e para aquele velhinho empalhado. Dormimos um pouco e fomos para a Vila Belmiro assistir ao jogo. Eu e Pablo tomamos uma cerveja num bar em frente ao estádio. Um lugar simpático ambientado por Cartola e alguns torcedores fanáticos. Entramos, pegamos um copo de chopp para cada e nos acomodamos. Entra aquele time de meninos em campo comandados por Emerson Leão. Era ainda o começo do Brasileiro de 2002, e muita gente ali falava de um menino extraordinário. Um pretinho franzino de nome Robinho. Mais um chopp e começa a partida. Um a zero para os vistantes, e eu, como são-paulino, sorria por dentro. Não podia me manifestar no meio de tantos santistas. Mas a molecada resolveu jogar. Robinho, Elano, Léo, Diego e cia deram um show e viraram o placar. Final 2 a1 para o time da Vila. Era essa equipe que se consagraria campeã daquele ano. Viraram heróis, mas não ídolos.

Voltamos para o buraco chamado Sobre as Ondas. Não lembro se o velhinho estava na varanda. No dia seguinte mais pancadas, como se os boxeadores treinassem dentro do nosso quarto. Eram 7 horas da manhã, e senti que algo estava errado. Mas não era com os socos insistentes. Pensei nos anos 60, e nos dias de hoje. E aquela pergunta cada vez mais complexa martelava na minha cabeça quando pensava em Mengálvio e Robinho – Por que hoje não temos mais ídolos?

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3:59 PM
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16.1.08  

É fácil ser um Luxemburgo?

Talvez. Depende de alguns fatores como sorte, dinheiro, credibilidade, e um pouco de talento. Tudo começou no ano de 1989. Luxemburgo, um ainda desconhecido técnico de futebol, que tinha como maior conquista o título do campeonato capixaba de 1983 com o Rio Branco-ES, aportou na terra da lingüiça e no dinheiro da família Chedid. Na época, o misto de patrono da família, deputado estadual e presidente do Bragantino Nabi Abi Chedid resolveu investir para ter um dos melhores clubes do interior paulista. Nessa época os times caipiras eram considerados fortes. Tempos saudosistas. Era um time que contava com investimentos, e tinha em seu elenco o lateral Gil Baiano, e o volante Mauro Silva. Com esse time, Luxa foi campeão da série B do Brasileiro (89), e do Paulista (90). Luxemburgo saiu do Braga, foi para o Flamengo, e em seu lugar assumiu o retranqueiro Carlos Alberto Parreira, que, claro, não teve a mesma sorte.

Luxemburgo ficou pouco no Flamengo, mas foi o suficiente para lançar jogadores como Marcelinho Carioca, Marquinhos, Djalminha e Zinho (segundo o site do próprio). Eu tenho o álbum da Copa União (88), e lá já tinha a figurinha do Zinho. Mas tudo bem. Com o Mengo, Luxemburgo conquistou o título da Taça Guanabara, o que não é muita coisa, já que se trata de apenas um dos turnos do campeonato carioca. Depois teve passagens pífias por Guarani e Ponte Preta. Foi em 1993 que Vanderlei assinou sua ficha com o diabo e virou Vanderley. Talvez uma numeróloga ou Robério de Ogum tenham falado a ele que a mudança seria boa. Mas, em seu RG de gato, ele continuava a ser o Vanderlei nascido em Nova Iguaçu no ano de 1952.

No Palmeiras-Parmalat, o primeiro clube empresa do Brasil, Luxemburgo conquistou 7 títulos. Em suas mãos passaram jogadores como Edmundo, Evair, Rivaldo, Roberto Carlos e uma constelação de outros jogadores. Vieram títulos e mais títulos e, consequentemente, o reconhecimento do homem como o maior treinador do Brasil na época. Já que Telê Santana não estava mais tão ativo depois dos dois Mundiais conquistados com o São Paulo F.C.

Luxemburgo sumiu de cena logo após deixar o Palmeiras-Parmalat, foi para o Paraná, voltou ao clube empresa, ganhou mais um Paulista, e dava ares de esgotamento com o clube da Barra Funda. Mas o diabo mais uma vez coçou sua orelha e disse “é ano do centenário do Flamengo, vai ter investimentos e mais jogadores. Vai deixar a peteca cair? Vai ficar sem títulos?”. Então Luxemburgo chegou a Gávea e, mais uma vez, aos investimentos. O Mengo montou um time que, antes de jogar, já se falaria que seria campeão. Era uma constelação, mas foi uma trajetória vexaminosa. Ao final, e com nenhum título conquistado, a torcida rubro-negra cantava “pior ataque do mundo / pior ataque do mundo / Sávio, Romário e Edmundo”.

Mas os dólares e o diabo dos títulos, ou o diabo dos dólares com títulos, mais uma vez gritou no ouvido de Luxemburgo “Hicks Muse vai investir”. Dito e feito, mais uma vez se formou um clube empresa no Brasil, o Corinthians-Hicks Muse. Aliás, o Corinthians só ganhou títulos importantes quando entrou grana de fora, mas isso é assunto para uma próxima coluna. Foi com mais um clube empresa, e com altos investimentos, que Vanderlei formou um timaço e ganhou o Campeonato Brasileiro de 1998, chegou à seleção Brasileira, e deixou o time pronto para o enganador do Osvaldo Oliveira ser campeão.

Foi em 2002 que o diabo apareceu para cobrar sua dívida. “Te dei dinheiro, bons jogadores e títulos. Agora eu quero que você desça”. Mas Luxemburgo, voltou a ser Vanderlei, e disse que quem desce é o Palmeiras. Fez o time investir, não obteve resultados, e a desgraça veio com a queda para a série B do time Paulista. Mas Luxa não estava mais lá, foi para o Cruzeiro que, com a promessa dos irmãos Perrella de investir no time, assumiu e foi campeão novamente. Conquistou a Tríplice Coroa, como chamam os mineiros, e largou o time numa draga financeira danada após sua passagem.

Mais uma vez seduzido por dinheiro, e pela voz do diabo, Luzemburgo foi para o Santos FC e o dinheiro da venda de Robinho, Diego, Elano e Cia. Conquistou mais um Brasileiro, o quinto de sua carreira, dois paulistas, e formou um time forte para disputar a Libertadores 07. Mas o fedorento entrou em cena novamente e disse “Lembra do contrato? Vai ser grande no Brasil, mas fora dele não”. Foi quando se deu conta de sua pífia passagem pelo galáctico Real Madri.

Agora Luxa volta ao Palmeiras, mais uma vez no ciclo vicioso do dinheiro-títulos-clube empresa. Largou o Santos na pindaíba, e chega para ser vitorioso com craques na mão. Agora vai a pergunta. Luxemburgo é bom porque os clubes por onde ele passa investem alto e trazem bons jogadores, ou Luxemburgo é bom é os clubes investem por causa dele? Um Cuca com grana poderia ser um Luxemburgo? Ou um Luxemburgo sem grana seria um Cuca? Mais uma pergunta, vai! Luxemburgo deixa um rastro de títulos e destruição por onde passa?

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1:30 AM
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9.1.08  

Hoje eu sou o seu filho da puta, Vinicius. Fique tranqüilo

“Blééééé”. Isso mesmo. Blé! Hoje em dia as campainhas não fazem mais aquele dindon suave. O Blé alto e irritante soou lá pelas 20h30. Eu esperava a Anette chegar do Ceasa com sacos de legumes, frutas e verduras. Mas ela não chegaria àquela hora, e também não tocaria a campainha. Eu já entornava a terceira, ou a quarta lata de cerveja ao lado de Nelinho e Lugui. Dois amigos de longa data que esperavam dar a hora para irmos para o bar. Entornar mais cervejas e assistir o tricolor garantir o título de campeão brasileiro contra o inútil América de Natal. Faltava só um empate, e o time potiguar não estragaria a festa. “Blééééé”. Novamente aquele barulho alto e chato deixou meus amigos nervosos e impacientes. Eles têm medo da Anette quando vêm aqui em casa.
Como não tenho olho mágico, perguntei – Quem é?
- Doce ou travessura – foi a resposta americanizada do outro lado da porta.
Interrogações surgiram em minha cabeça. Doce ou travessura? Halloween? Que merda toda é essa? Abri a porta e vi um magrelinho com a camisa do Corinthians, e um gordinho com um ar estranho, que me deu a certeza de que ele vai ser viado quando crescer. O gordinho bicha estava vestido normalmente. Nem nisso brasileiro sabe imitar a cultura alheia. Reconheci logo o corinthiano, e ele me reconheceu também, sabia quem eu era porque mora há dois anos no apartamento ao lado. Ou se é que podemos chamar essas cápsulas urbanas de apartamento. São feitas apenas para dormir, se for chamar amigos para um jantar que sejam poucos e magros.
- Tio, tem doce? – perguntou o corinthiano pra mim. Minha cara de puto pelo Bééé deve tê-lo feito esquecer das travessuras. Eles perceberam que eu não estava para brincadeira.
- Espera ai!
Sabia que a Anette guardava umas balas por mais de um ano num pote de vidro. A travessura foi minha. Bala vencida pra criança chata é a melhor coisa. Ano que vem vão se lembrar de não tocar minha campainha de novo.
- Ai, são-paulino, tem esse monte de bala aqui.
Quando você quer irritar alguém que adora futebol, é só chama-lo pelo nome do time rival. Eu faço isso com Vinicius, o corinthiano. Não é proposital, o garoto é gente boa, mas ele me faz lembrar da minha infância.
Eu morava na Vila Fiat Lux. Uma pequena vila de quatro quarteirões que fica entre a Marginal Tietê, e a saída da Rodovia dos Bandeirantes. Foi lá que conheci o que é rivalidade, e o que é chorar por futebol. O ano era 1983, eu tinha oito anos e a consciência de que o futebol seria algo definitivo em minha vida. O São Paulo tinha a melhor zaga de todos os tempos com Daryo Pereira e Oscar, e lá na frente o débil mental do Serginho Chulapa. Minha pobre lembrança era a dos meus tios e meu pai reunidos na sala para ver a final do Paulista entre São Paulo e Corinthians. Um ano antes já havíamos perdido o mesmo campeonato para eles, apesar de termos ganho em 80 e 81. O jogo rolou, o Corinthians empatou e levou o título depois de terem ganho o primeiro jogo da decisão. Foi quando lágrimas escorreram pelo meu rosto. Pela primeira vez eu chorei por causa do futebol, não seria a primeira, e não vai ser a última. Choro quando ganha também. Saí na rua e encontrei um filho da puta chamado Fábio. Ele era mais velho, mais ou menos como eu e meu pequeno vizinho. Veio todo alegre, com aquela cara de babaca tirar onda com minha cara. Para me irritar me chamava de corinthiano toda vez que me via pelas pequenas ruas da vila. E isso me deixava realmente puto da vida.
- Valeu, Tio – falou o gordinho com jeito de quem vai ser bicha.
- Falou!
Fechei a porta e voltei para minha cerveja e para meus amigos. Como já estava perto da hora do jogo, e corríamos o risco de ficar sem mesa no bar, eles foram embora para garantir um lugar, e esperar mais uns amigos que também iriam para lá. Eu tinha que esperar a Anette chegar para descarregar as leguminosas, e ir para o bar que era ao lado de casa. Nesse meio tempo pensei em Vinicius, Fábio, e em como os ciclos da vida se repetem. Depois de ajeitar as coisas na geladeira e de dar um beijo em Anette saí. Chamei o elevador, e apareceu Vinicius com a camisa do Corinthians, e o saco de balas e outras guloseimas estranhas. Entramos no elevador. Ele, filho de mãe solteira, ia sair com o pai que mora em algum lugar de São Paulo.
- E, ai! Não vai ver o jogo do seu time? – me perguntou
- Tô indo agora, são-paulino. E você, vai ver seu time perder mais uma e cair pra segundona?
Ele deu um sorriso triste, abaixou a cabeça, e não disse mais nada até chegarmos no térreo. Eu escuto o sofrimento dele, sei pelas porradas na parede do apartamento ao lado quando as coisas não vão bem para o time de Vinicius. Hoje eu sou o seu Fábio. Hoje eu sou o seu filho da puta.

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1:39 AM
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29.11.07  

O dia em que Allan Kardec derrubou São Jorge

Eram quase vinte minutos do segundo tempo, e o jogo continuava nervoso, menos para mim que assistia tudo com uma lata de cerveja na mão, e no conforto do meu sofá que tentava a todo custo me engolir num sono profundo. As câmeras da Globo captaram no meio da torcida corinthiana um padre, de batina e sorriso amarelo naquela face esquisita em meio a rostos tensos pelo momento do time que tenta fugir do rebaixamento. Se depender do Goiás não cai. Foi então, que aos olhos do padreco corinthiano, que ele, representante maior do espiritismo, nascido na França no século XIX, e reencarnado no Brasil, correu pelo meio da área e recebeu cruzamento de Guilherme. Gooool. Allan Kardec, o pai do espiritismo, marcou de cabeça, na cara do padre, e de todos os seguidores de São Jorge, o gol que pode crucificar o Corinthians, e batizar o time rumo a segundona 2008.

Apesar do resultado desfavorável, e da descrença total no time, a torcida deu exemplo e, dessa vez, não tentou invadir o campo. Talvez a apatia que tomou conta do coletivo levou todos a acreditarem que a queda não será tão ruim quanto se pensa. A continuação do time na primeira divisão, apenas esconderá algumas limitações da diretoria que, no papel de Andrés Sanchez, apenas cheira uma continuidade da era Dualib. A degola trará a tona as mazelas do time paulista, e um aninho lá embaixo não é nada. Fez bem para Palmeiras e Grêmio, que aprenderam com a queda a administrar melhor o departamento de futebol, e respeitar algo maior que se chama Torcida. Que paga ingresso, compra camisa, gera filhos, e é a razão da existência de qualquer clube de futebol. Dane-se o mercado. Eu quero ver gol.

Bahia sobe e a torcida cai – A nota triste do ano no futebol é a morte de sete torcedores do Bahia. O que é lamentável é o jogo de empurra das autoridades baianas para que ninguém assuma a culpa sobre o incidente. Com fome de arrecadação, dirigentes de futebol limparam a bunda com o laudo técnico que, há dois anos, o ministério público baiano vem demonstrando que a Fonte Nova não tinha condições de receber jogos. E a solução tardia, como sempre no Brasil as soluções são tardias, é de demolir a Fonte Nova. Como lá no Pará. Colocam uma menina, menor de idade, dentro da cadeia para transar com presos, e a culpa é da cadeia. Solução? Vão demolir a cadeia. Provavelmente vão construir uma mais confortável, com cama king size, espelho no teto, e hidromassagem.

Pai Tobias e a última rodada do campeonato brasileiro

É, Natal chegando, campeonato acabando, e três vagas em disputa nessa última rodada do Brasileirão. Duas pra cair e uma para disputar a Libertadores 2008. Pai Tobias ta de saco cheio, e disse que ano que vem vira pastor evangélico.

Palmeiras x Atlético MG – O Palmeiras é o time com mais chance de se classificar para a Libertadores, porém joga em casa, e no seu estádio ele costuma refugar. Pai Tobias sente vibrações negativas rondando o Parque Antártica. 2 a 1 pro time mineiro, e adeus libertadores.
Goiás x Internacional – Jogo da vida pro Goiás, tem que ganhar, o que é difícil para o futebol que o time vem jogando, e ainda torcer por um resultado negativo do Corinthians. Pela urucubaca que circunda a região goiana, é bem capaz que perca. Pai Tobias sentiu que o saci vai aprontar. 1 a 0 para o Inter.

Cruzeiro x América – Basta à raposa empurrar o morto e torcer pelo seu inimigo derrotar o Palmeiras. Cruzeiro 3 a 0, e os jogadores escutando o final da partida entre Palmeiras e Atlético pelos alto-falantes do Mineirão.

Vasco x Paraná – O Vasco ainda tenta uma vaga para a Copa Sulamericana, enquanto o Paraná sonha com um possível milagre. Se o Paraná vencer, o que é difícil, o time escapa do rebaixamento, porque um dos dois outros times que brigam para não cair, vão perder tranquilamente. Pai Tobias teve dificuldade com seus búzios, mas viu que o sapo boi da São Januário vai inundar o vestiário do time paranaense antes do jogo. Vasco 2 a 1.

Grêmio x Corinthians – Se depender desse jogo, o Corinthians ruma para a segundona. Ainda mais que o Grêmio tem remotas chances de vaga para disputar a Libertadores 2008. Pai Tobias nem precisou jogar seus búzios. 2 a 0 Grêmio, e a sorte do Corinthians é que Goiás e Paraná vão perder seus jogos.

Jogos mortos, e que não valem porra nenhuma:

Atlético PR 2 x 2 São Paulo, Botafogo 1 x 2 Figueirense, Náutico 3 x 1 Flamengo, Santos 2 x 0 Fluminense e Juventude 0 x 0 Sport.

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